quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Óleo de Peixe (Ômega 3)


O óleo de peixe promove a saúde da pele e pelagem (proporciona menor queda de pêlos e pelagem brilhante, diminui a inflamação que ocorre em processos alérgicos, aliviando a coceira e vermelhidão), articulações, rins, coração, olhos e cérebro, além de melhorar o sistema imunológico, sendo um grande aliado no tratamento de doenças crônicas como o câncer (alguns estudos demonstraram uma desaceleração no crescimento de tumores com a administração de óleo de peixe).

Tais "poderes" se devem ao fato do óleo de peixe conter EPA (ácido eicosapentaenoico) e DHA (ácido docosahexaenoico). EPA e DHA são ácidos graxos poliinsaturados ômega 3 de cadeia longa, encontrados naturalmente em fontes marinhas, incluindo peixes de águas frias (sardinha, cavalinha, anchova, salmão selvagem, arenque), mariscos e algas marinhas, as quais são a fonte original, na cadeia alimentar, desse tipo de gordura.

O ômega 3 representa uma família de ácidos graxos (ácidos gordurosos) essenciais, isto é, que não são fabricados ou sintetizados em quantidade suficiente pelo organismo, sendo necessário obtê-los através de alimentos e/ou suplementos.

Os ômega 3 são primordiais para a formação de membranas celulares e manutenção do equilíbrio das funções do organismo, extremamente importante para a saúde do coração, cérebro e saúde ocular em todas as fases da vida. Funcionam como sinalizadores celulares para diminuir a inflamação (menos inflamação significa menos dor, menos vermelhidão, menos inchaço).

EPA tem ação antiinflamatória, benéfica em qualquer condição proveniente de inflamação, aguda ou crônica. DHA possui ação antioxidante e é muito importante para a saúde do cérebro (favorece a cognição e as conexões entre os neurônios), além de essencial para um bom desenvolvimento fetal, sendo indicado suplementar na alimentação de cadelas e gatas gestantes e lactantes, e também nos primeiros meses de vida dos filhotes.

No organismo, a quantidade de ômega 3 deve estar em equilíbrio com o ômega 6 (outro tipo de ácido graxo poliinsaturado). Um tem ação antiinflamatória (ômega 3) e o outro tem ação pró-inflamatória (ômega 6). O problema é que os ácidos graxos ômega 6 estão presentes em excesso na alimentação (por exemplo: tanto os grãos, quanto a carne de animais alimentados com grãos, são ricos em ômegas 6), enquanto o consumo de alimentos ricos em ômega 3 tem sido cada vez mais baixo. O Ômega 6, por ser pró-inflamatório, sinaliza para que as células produzam uma resposta inflamatória no organismo, e é por isso que precisamos evitar seu desequilíbrio em relação ao ômega 3.

Como todo suplemento, ele pode não ser indicado para todos os cães e gatos, especialmente aqueles que estiverem tomando algum medicamento ou tiverem sensibilidade gastrointestinal. Converse com o médico veterinário responsável pelo seu pet, ou com um nutrólogo veterinário, para ter certeza se a suplementação com óleo de peixe é indicada, e qual a dose mais adequada. Mesmo em casos de doenças em que o óleo de peixe sabidamente tem um papel benéfico, pode ser necessária a oferta de uma quantidade específica para que produza o efeito esperado.

Por fim, mas não menos importante, muito cuidado com a qualidade do óleo de peixe que for adquirir. Existem muitas opções no mercado, mas a grande maioria não atende os requisitos básicos, e um óleo de peixe de má qualidade é dinheiro jogado fora!

Antes de comprar, conheça alguns pontos essenciais que afetam a qualidade do óleo de peixe:

- Observe o conteúdo de EPA e DHA por cápsula, e sua proporção. Uma cápsula de 1000mg contendo 180mg de EPA e 120mg de DHA está jóia! 

- Ômega 3 que de boa qualidade sempre terá Vitamina E na cápsula (pode vir escrito Alfatocoferol ou Tocoferóis ao invés de Vit E). A Vitamina E vai atuar como antioxidante, evitando assim a oxidação do óleo (que ocorreria facilmente sem ela) e mantendo a qualidade do produto, mas essa vitamina E não deve ser contada como suplementação, é apenas coadjuvante técnico do produto.

- Verifique se é isento de contaminantes ambientais: PCBs, mercúrio e dioxinas (geralmente os bons produtos informam isso de forma bem destacada na embalagem).

- Verifique se é extraído por destilação biomolecular ou ultra-filtrado: o que garante isenção de poluentes ambientais. 

- Por fim, faça o teste: pegue uma cápsula de suplemento de óleo de peixe (ômega 3) e coloque no congelador por 5 horas. Como a temperatura do congelador gira em torno de -3°C a -5°C e o ponto de fusão (quando o óleo altera sua consistência de líquida para sólida) do ácido linolênico (ômega 3) é de cerca de -10,0ºC, fure a cápsula e veja se ele continua líquido, se enrijecer é porque o óleo está oxidado ou não se trata de um produto ultra-filtrado, e você deve trocar de marca de óleo de peixe. A cápsula pode até endurecer porque é gelatinosa, mas o óleo não. 


Observação: O ácido linolênico (ALA), mesmo sendo um ômega 3, não tem aproveitamento efetivo nas rotas metabólicas de felinos, porque eles não têm delta 6 desaturase. Os melhores ômegas 3 são os do óleo de peixes marinhos (EPA e DHA) ou de algas (DHA puro). Somente estes 2 terão utilização metabólica em felinos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Cães de raça estão morrendo cedo, e só os criadores podem mudar isso

Acabo de ler um texto da expert Carol Beuchat, fundadora do Institute of Canine Biology, que resolvi traduzir pra que essa informação alcance mais pessoas. É uma informação especialmente muito importante para criadores de cães.


Se foi cedo demais? Já basta. 

Minutos atrás, meu amigo acabou de perder o amado cão para o câncer. Aos 7 anos de idade. Isso é apenas metade de uma vida para um cão.

É devastador. Pior ainda, para esta raça (Flat Coated Retriever) tornou-se previsível. Cada proprietário desta raça sabe que há uma boa chance de que exista uma bomba relógio no cão da família.

Eu operei meu pulso direito na semana passada e é difícil para escrever, ou eu, sem dúvida, colocaria pra fora outro discurso como o que escrevi sobre Dobermans caindo mortos, há algumas semanas. Eu não posso fazer isso hoje. Mas ainda tenho algo a dizer.

Criadores provavelmente vão declarar que estão determinados a derrotar esse câncer. Eles vão pagar por mais pesquisas sobre tratamentos, eles vão financiar pesquisas para os genes problemáticos, eles vão apoiar estudos que esperam identificar fatores ambientais que podem estar envolvidos. Até agora, nós não aprendemos nada que vá reduzir a probabilidade de um cão ser diagnosticado com câncer nos seus primórdios, nesta raça ou em qualquer outra. O problema é simples. Endogamia (Inbreeding) e perda da diversidade genética necessária para produzir cães saudáveis. Nós quebramos o cão.

Aqui está a verdade. Nós não precisamos de mais pesquisas sobre o câncer. Nós gostaríamos que o câncer fosse uma daquelas coisas que nunca temos que nos preocupar, como pegar uma doença de pele de um camelo. Você não deveria ter que saber nada sobre câncer se você quiser trazer um novo cão para sua família e, de fato, o proprietário de um animal de estimação em geral não sabe. Mas os criadores sabem com certeza. Ele (o câncer) "vem com a raça".

Quando vamos declarar que já basta? A endogamia (inbreeding) está matando nossos amados cães de raça pura, em dezenas de formas específicas conforme a raça. Como é possível que, fazer algo para corrigir isso, seja pior do que a dor de centenas de corações partidos? Como podemos afirmar que somos criadores "responsáveis" mas não ficamos horrorizados com o fato de que podemos predizer a morte prematura dos cães que criamos?

Algo está muito, muito errado quando o que precisa ser feito é tão óbvio, mas "boa sorte para conseguir que os criadores façam isso". Os cães escolheram se juntar a nós dezenas de milhares de anos atrás, em uma parceria notável. Cães são verdadeiramente um presente de Deus para a humanidade. Se não fosse por eles, a trajetória da civilização seria muito diferente. O que seria de nós sem cães? Como seria sua vida sem cães?

Eu estou muito, muito triste. E muito, muito brava. Todo mundo oferece condolências. "Eles nunca ficam conosco o tempo suficiente", e "Eu sinto sua dor", e "Lembre-se das memórias maravilhosas". E eu também sinto muito, muito mesmo. Mas caramba, ISSO NÃO ESTÁ CERTO.

Apenas os criadores podem corrigir isso. Já basta. Façam algo.

Descanse em paz, doce Fabes. Nós TEMOS que fazer melhor. ISTO NÃO É CERTO. Eu não vou deixar que te esqueçam.


Por Carol Beuchat PhD - Institute of Canine Biology


O texto original se encontra nesse link:

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A despedida nunca é fácil

Estive distante novamente, pra variar sem ânimo pra escrever sobre os temas complicadinhos que eu costumo gostar de abordar (que aguardam sua vez em uma listinha que faço dos assuntos interessantes que penso serem muito válidos pra colocar aqui). Meu último post aqui foi sobre o Holistipet, dia 16 de Abril. Pois é, aí fiquei doente (com chikungunya) bem na semana do Holistipet, nem consegui acompanhar todo o Congresso conforme gostaria, mas como fica tudo disponível online, não perdi nada!! Fica aqui a dica pra quem perdeu: é possível comprar ingresso e ter acesso a todo o conteúdo, vale a pena!

Hoje não vou falar sobre nada complicado, mas sobre algo difícil por ser doloroso. Há quem pense que a gente que tem muitos cães, não sente quando partem, ou que sentimos menos. Sabe que eu até gostaria de ter certa frieza pra não sofrer nem chorar, mas acho que se alguém chega a esse ponto, sequer merece ter um animal de estimação. Eu tenho cães porque os amo. Sou completamente apaixonada por eles e quero o melhor pra cada um. Acho que nunca vou me "acostumar" com a despedida, e acho que assim é melhor, pois é sinal de que eu continuo amando-os infinitamente.

Hoje às 3 horas da manhã eu chorava como choro agora. Hoje a Farah (Brenda von der Nahmisté) morreu. Ela foi a Pastor Alemão mais doce que eu já tive, e arrisco dizer que foi a pastora que mais gostava de mim (e acho que por isso eu gostava tanto dela, minha "Farofa" ou "Farofí-Farofá").
Não foi inesperado, não me pegou de surpresa, mas dói. De certa forma sinto alívio por ela e pela homeopatia terem me dado o privilégio de não vê-la sofrer quase. Isso é uma bênção.
Ela já vinha mostrando sinais de senilidade, como fraqueza e pouca atividade, mas estava bem. A fraqueza se intensificou nos últimos dias e passava mais tempo deitada. Até anteontem comeu normalmente e se levantava. Ontem ela ficou realmente ruim, não se levantou, não quis comer, não quis beber água, só me olhava. O olhar aflito deu lugar a um olhar sereno logo após medicá-la (com homeopatia, sem stress, sem picadas, sem dor), e isso me confortou muito. Passou o dia quieta, calma, deitadinha. Sabíamos que a hora dela partir estava próxima, que a energia vital dela estava quase acabando. E de madrugada ela se foi. Descanse em paz.


sábado, 16 de abril de 2016

Holistipet - Congresso online sobre cuidados naturais para pets, acessível a todos!

Hoje vim apenas para fazer uma recomendação:

se inscrevam, assistam e participem do HOLISTIPET!

Começa na próxima terça-feira, dia 19 de Abril de 2016


Já faz algum tempo que trato meus cães de forma mais natureba: dou comida caseira balanceada (desde Agosto de 2004) e sempre prefiro tratamentos mais naturais e menos agressivos, além de praticar protocolos vacinais individualizados.
O resultado é visível: mais saúde e resistência a doenças, além de recuperação muito mais rápida quando algo acontece. Me importo muito com qualidade de vida e manutenção de uma boa saúde, e o manejo mais natural dos meus bichos vem me mostrando uma enorme (e positiva) diferença nesses quesitos.

O Holistipet terá palestras ministradas por profissionais que eu admiro e respeito. É por isso que eu me inscrevi logo que abriram as inscrições, e recomendo a todos os proprietários, criadores e veterinários. Afinal, SEMPRE temos algo a aprender!

Mesmo que você não seja familiarizado com esse universo holístico, que tal dar uma chance para aprender coisas novas e enxergar saúde e bem-estar animal por outra perspectiva?

O Holistipet é um congresso online sobre medicina integrativa e cuidados holísticos para cães e gatos, aberto ao público em geral (inclusive proprietários e criadores). A inscrição custa 200 reais. Pode parecer muito dinheiro, mas não é, pois é muito conhecimento e aprendizado!!! São mais de 25 palestras, com 22 palestrantes, em 7 dias de evento. Após cada palestra haverá chat online ao vivo para tirar dúvidas ou fazer mais perguntas. E se você não puder assistir alguma palestra, pode ficar tranquilo, pois as palestras ficarão disponíveis e você poderá assistir quantas vezes quiser e quando quiser, no período de 1 ano.

Para conhecer os palestrantes, visite essa página:

Para ver a programação, aqui:


Obs: Não, eu não estou ganhando nada, nem minha inscrição, para fazer essa propaganda. Estou divulgando porque realmente acredito que o Holistipet será imperdível e trará muito conhecimento, capaz de mudar para melhor a vida de muitos cães e gatos.

terça-feira, 12 de abril de 2016

A verdade sobre o "adestramento 100% positivo"

Sem inspiração pra escrever muito, nem traduzir longos textos (estou com vários posts e assuntos em rascunho, mas não estão saindo por causa disso... desculpem), então hoje irei apenas deixar um vídeo de 50 minutos e um texto, ambos em inglês, para aqueles que dominam o idioma (quem não domina consegue entender e acompanhar também, com boa vontade, usando a pausa do vídeo e com a ajuda de um tradutor, certamente dá pra captar a mensagem). O título dessa postagem é o mesmo título do vídeo.

É um tema polêmico (pra variar) sobre o qual eu tenho vontade de falar quase sempre, mas é extremamente complicado e delicado de abordar quando a conversa é com alguém que não foi educado a usar adequadamente todas as ferramentas de treinamento disponíveis, e principalmente que se deixa levar pelo marketing mentiroso de muitos adestradores "positivistas".

O vídeo e texto abordam exatamente isso, como esse slogan do positivismo muitas vezes é mentiroso e o quão perigoso pode ser quando aplicado por pessoas despreparadas.

Eu (e tantos excelentes treinadores que conheço) uso tanto reforço positivo quanto, ou se bobear até mais que muito "positivista" que já vi por aí. E muitos que se autointitulam positivistas usam tanta punição positiva quanto, ou até mais, que os demais, como o vídeo abaixo mostra claramente.

O que acontece é que manipulam todo um discurso de forma a associar a punição positiva a abuso / força / brutalidade (são coisas completamente diferentes!!!) e também (especialmente) a determinados equipamentos de treino que usamos. Mas a grande verdade é que abusar (no sentido de maltratar) não depende de equipamento nenhum, mas sim de intenção/vontade (e caráter, claro).
O colar eletrônico é um belo exemplo disso. Um equipamento altamente versátil e extremamente eficiente seja pra excitar, como marcador de comportamentos desejados (siiim, marcador de comportamentos desejados, sem murchar o cão, pelo contrário!), ou pra corrigir de forma clara e pontual (sem qualquer dano e geralmente com muito menos stress do que de outras formas), mas que normalmente tem seu uso associado exclusivamente a punição no sentido de abuso (punição dolorosa, cruel), o que só vai acontecer se o operador do equipamento tiver más intenções mesmo. Tem gente que é totalmente contra o colar eletrônico, mas que faz uso de golpes físicos para punir excessivamente (abusar). Já vi "treinadores" perderem a cabeça e aplicarem punições totalmente descabidas e desproporcionais com os mais variados equipamentos e sem nenhum, mas sim com as próprias mãos e pés. Portanto, assim como o estímulo, a punição ou até o abuso podem vir através de um colar, o estímulo, punição ou abuso também podem vir diretamente pelas mãos, sem o uso de equipamentos... depende apenas da vontade de quem está trabalhando/treinando aquele cão.

Como EU, na minha "santa ignorância", já estive do lado de lá, criticando o uso de equipamentos que eu NÃO CONHECIA DE VERDADE (quando conhecia, só conhecia o MAU USO deles), sei que não adianta discutir e muito menos empurrar goela abaixo coisas que só o interesse em aprender, a vivência e o conhecimento nos ensinam. Como fazer pra quebrar pré-conceitos eu não sei, mas o interesse em aprender quase sempre se molda e limita conforme os nossos pré-conceitos.... e se não há interesse, não haverá aprendizado. Mas eu espero, de coração, que todos possam aprender, cada um no seu tempo, a usar adequadamente o equipamento ou técnica que forem mais adequados a cada caso, e a trabalhar qualquer cão, de qualquer temperamento e idade, estragado ou não, sem lhe causar danos (muito menos a morte ou indicação a eutanásia) e sem colocar pessoas em risco.

O texto que complementa o que mostra o vídeo está nesse link:
https://www.dogtraining.world/criminal-acts-positive-dog-training-community/

E o vídeo:

domingo, 27 de março de 2016

Cães de trabalho e linhagens (exposição x trabalho)

Eu falhei (não escrevi no blog semana passada!), mas voltei. Já aviso que vou escrever de um jeito informal, pra tentar me fazer entender da melhor forma possível.

Pra variar, na correria, decidi o tema de última hora. Mais uma vez me deparo com anúncio de venda de filhote (no caso era de Dobermann) com a descrição contendo "linhagem de trabalho", sendo que tudo indica que a linhagem nesse caso era 100% show / exposição. Eu cheguei a perguntar, na publicação, se era mesmo linha de trabalho e quem eram os avós (pra quem conhece bem pedigrees e nomes de canis, geralmente fica fácil saber qual a linhagem pelos nomes de registro), mas a pessoa simplesmente deletou meu comentário, sem responder. Então só me resta concluir que não se tratava de engano ou confusão, mas de propaganda enganosa, não é mesmo?

É relativamente comum as pessoas se enganarem ou se confundirem com os nomes dados às linhagens, quando se baseiam somente em verificar títulos. Há quem acredite que ter título de trabalho é sinônimo de ser de linhagem de trabalho, e que ter título de beleza / exposição é sinônimo de ser de linhagem de exposição. ERRADO!!! 

Quando falamos de determinada linhagem ou linha de sangue, nos referimos à genética / pedigree / árvore genealógica daquele exemplar, mais especificamente sobre o foco de seleção ao qual a genética daquele indivíduo foi submetida, e não quanto às suas habilidades.

Qualquer pessoa que tem um cão que treina ou compete em provas de trabalho, pode dizer que tem um cão de trabalho, mas linha de sangue / linhagem de trabalho são outros 500 (depende da árvore genealógica / genética daquele indivíduo).

Devido à seleção na criação, as raças acabam tendo uma separação de "tipos", e em diversas raças de cães existem distintas linhagens de show / exposição e linhagens de trabalho. O que significa isso?
Uma vertente se preocupa prioritariamente com a aparência / estrutura (por exemplo: cor da pelagem, angulações, profundidade do peito, etc.), com o objetivo principal de vencer exposições de beleza e conformação, e a outra vertente se preocupa prioritariamente com o caráter / temperamento, no sentido de possuir habilidades para realizar a função à qual aquela raça foi criada (ou competir em provas de trabalho).

Infelizmente não é possível ter tudo junto, quando se quer ter tudo (podemos comparar com gado de dupla função), podemos até conseguir ter o cão que é bom em ambos quesitos, mas jamais será excelente nos dois, e muitas vezes a estrutura que se busca pra vencer exposições pode até mesmo atrapalhar ou ser prejudicial ao trabalho / função (por exemplo: cães extremamente angulados, que "voam na pista" ao trotar se apresentando em exposição, geralmente são desengonçados para correr em galope e podem ter dificuldade para saltar, isso pode ser notado facilmente na raça Pastor Alemão).

Em geral os cães de linha de trabalho não são tão bonitos, mas a beleza deles está exatamente na aptidão ao trabalho, por isso que quando queremos mostrar o melhor dos nossos cães de trabalho, mostramos vídeos. Determinação, impacto, tenacidade... tudo isso exige movimento, ação, ou nossos olhos podem ser enganados. É por isso que cães de trabalho geralmente não têm tantas fotos "em pose", mas sim fotos variadas 'em ação', e que o desejo maior dos apreciadores desses cães é por vídeos do que por fotos.

Fotos servem principalmente para ver estrutura, e por isso os cães de exposição são muito mais mostrados sempre com fotos e poses dignas de capa de revista. O melhor deles é sua beleza, e por isso o "desejo" maior dos seus apreciadores é por fotos em "stay".


Transcrevo abaixo, com alguns ajustes, textos que escrevi já faz mais de dois anos (em 14/Jan/2014), durante uma discussão em rede social. Falo basicamente o que eu penso mas creio que explica um pouco melhor sobre o que é criar com foco em temperamento:

Eu me preocupo com cães dentro do padrão, inclusive em relação ao temperamento. O que poucos sabem é como se avaliam esses adjetivos usados pra descrever o temperamento no padrão, tanto que escrevi um texto especificamente pra falar disso (http://doberman.com.br/site/t_temper.html).
Achar que temperamento se resume a drive (ou que quem treina acha que se resume a drive) é coisa de quem não sabe avaliar temperamento e nem para que servem as provas de trabalho, muito menos o que está embutido na execução de cada exercício. Não é só o morder, é como morde e por que aquele exemplar morde daquela forma. Não é só o correr, é como corre, em qual velocidade, e principalmente o que isso significa. O significado da forma de executar cada etapa é que fala sobre o temperamento, não o fato de executar ou não.
A descrição do temperamento se resume a um parágrafo do padrão, mas simboliza 50% de um cão de verdade. E falta saber enxergar o que as palavras contidas ali significam, pra então entender a importância delas.

Outra questão interessante é que há diversos cães com características que fogem do padrão, vencendo exposições, e consequentemente essas características passam a ser encaradas como o "correto" para quem participa. Vejo olhos incorretos, e peitos, e pescoços.... mas temos que lembrar que um arbitro julga o conjunto e o compara com os demais ali presentes e não só com o padrão, para poder premiar, e ainda assim, um toque de gosto pessoal sempre está envolvido, portanto também não dá pra crucificar os envolvidos. Mas, com isso, caímos na armadilha de não saber mais apreciar o correto de verdade, ou o quase correto que seja.

Eu já fui da opinião "se eu posso ter um cão bonito e de excelente temperamento, pra que vou querer um feio?", quando conheci a aparência em geral dos cães de linha de sangue de trabalho (portanto não conheci o melhor deles), enquanto só tinha contato com cães de linhagens show (que eu considerava terem "excelente temperamento" dentro do meu limitado conhecimento e referências).
Depois de entender a (enorme) diferença de temperamento entre eles, eu passei a ver menos beleza em cães "apenas belos". Percebi como minha percepção e opinião haviam mudado em um momento específico, quando assisti um vídeo. Explico: havia um cão que eu achava maravilhoso, muito mesmo, era fã dele, o achava o máximo, até que encontrei um video dele em ação (em prova de IPO, na qual ele foi aprovado, pois obteve pontuação suficiente para tal). Simplesmente perdeu o encanto mesmo com toda aquela beleza... ele executava de forma tão "meia-boca", que foi uma decepção enorme pra mim. Mas foi também um aprendizado e "divisor de águas", ali eu descobri que um temperamento mediano-fraco torna o cão "mais feio" pra mim, sendo ele belíssimo de estrutura ou não, tendo títulos (inclusive de IPO) ou não.

As raças foram criadas e desenvolvidas conforme suas funções, portanto se um cão cumpre excelentemente bem sua função, ele tem estrutura apropriada. Ponto final!
É mais fácil do que vocês imaginam ver cães que alguns chamam de "estruturalmente corretos" com problemas pra trabalhar (se considerar falta de aptidão mental / de temperamento, pior ainda). Isso porque o padrão que vence exposição, ou que tem mais chances de, não é mais aquele descrito no padrão... 

Eu só falei tudo isso para que saibam que o fato de eu gostar de cães de trabalho (e de linhagem de trabalho) não ocorre porque sou cega ou trouxa (sei que ninguém falou isso, mas vai que pensou? hehehe). Eu gosto e já ha algum tempo os prefiro por motivos muito bem fundamentados, e sei muito bem o quão "feios" eles são frente aos demais. Mas eles são maravilhosos na sua essência, e só quem treina e convive com um cão de bom temperamento e grande aptidão para o trabalho entende isso.

E termino por aqui. Se você teve paciência de ler tudo, me conte o que achou :)
Um grande abraço e boa semana!



domingo, 13 de março de 2016

Linhagem de trabalho e linhagem de exposição: quão significantes podem ser as diferenças entre elas?

Mais cedo eu estava aqui, limpando a casa, sem saber o que postar no blog essa semana. Recebi ótimas sugestões mas são temas mais "trabalhosos" e esses eu deixo pra quando tiver mais tempo (e inspiração), que não é o caso de hoje nem dos últimos dias. Almocei e vim ao computador pra descansar um pouco do trabalho braçal quando... tcharam!!! Eis que surge no meu feed do facebook um compartilhamento de um trabalho muitíssimo interessante, tema mais do que oportuno para falar sobre:

Fadel, F. R. et al. Differences in Trait Impulsivity Indicate Diversification of Dog Breeds into Working and Show Lines. Sci. Rep. 6, 22162; doi: 10.1038/srep22162 (2016).

O trabalho pode ser acessado nesse link: http://www.nature.com/articles/srep22162

Pra resumir, vou citar trechos que achei mais relevantes (ao final transcrevi os trechos em inglês):

O estudo avaliou diferenças comportamentais entre linhagens show (de exposição) e de trabalho nas raças Border Collie e Labrador. Ele conclui que as diferenças entre raças são menores do que as diferenças entre linhagens, portanto as diferenças DENTRO da mesma raça são maiores do que as diferenças entre as duas raças. Sendo assim, generalizações baseadas na raça apenas não são apropriadas.

Em relação à linhagem, Border Collies de trabalho apresentaram diferenças de Labradores de trabalho, mas as linhagens show (exposição) das duas raças não tiveram diferenças significativas. Seleção artificial alterada ou relaxada para características comportamentais, quando a aparência ao invés do comportamento torna-se o foco principal para os criadores, pode reduzir diferenças médias de impulsividade entre raças nas linhagens show (de exposição).

Os resultados são consistentes com a hipótese de que a criação de linhagem show (exposição) resulta em uma perda significante da diversidade comportamental tradicionalmente associada a uma raça [...].

É inapropriado fazer previsões sobre a tendência comportamental de um indivíduo canino baseando-se apenas em sua raça.


Os resultados sugerem que, no quesito comportamento, escolher a certa LINHAGEM / LINHA DE SANGUE dentro de determinada raça pode ser mais importante do que escolher apenas pela raça.


Embora o estudo tenha sido feito com as raças Border Collie e Labrador, quem (como eu) já conviveu com exemplares de linhagem de trabalho e de linhagem show, sabe que tudo isso faz muito sentido. E é por isso que a MINHA ESCOLHA hoje é linhagem de trabalho.

Muita gente, ao procurar exemplares de determinada raça, pesquisa apenas preço e/ou aparência (maior, mais fortão, mais escuro), dando pouco ou até nenhum valor pro comportamento/temperamento.

A grande maioria dos criadores, por sua vez, descreve seus cães como possuidores de "excelente temperamento". Excelente pra que? Excelente pra quem?

Não foram poucos os que nos procuraram decepcionados com o temperamento de exemplar adquirido de outro canil. Esses normalmente chegam querendo o filhote de temperamento mais forte... só que nossa seleção é focada em temperamento e criamos exclusivamente com linhas de trabalho, completamente diferente da seleção feita e linhagem usada pela maioria dos criadores. Então nossos filhotes mais "fracos" muitas vezes se mostram muito melhores no quesito comportamento/temperamento do que o dito "melhor" (de temperamento) de outra criação, claro, quando o objetivo do proprietário inclui habilidade para o trabalho.

Como bem cita o estudo que originou essa postagem, as diferenças entre o temperamento/comportamento de cães de linhagens de trabalho e show da mesma raça são muito grandes, parecem mesmo raças diferentes.

Cão perfeito em todos os quesitos e pra todos os gostos NÃO EXISTE. Existe sim, cão perfeito pra determinado dono ou determinada função/finalidade. O que o criador x considera perfeito pra ele, pode ser interessante mas não ideal na opinião do criador y, mas péssimo pra mim, e vice-versa.

Por isso é muito importante pesquisar e principalmente saber o que você procura. Quem sabe o que procura não se baseia apenas em opiniões, mas consegue distinguir o que procura e o que não procura com os próprios olhos. Até porque opinião é algo muito pessoal. Cada pessoa tem uma opinião e entendimento das coisas conforme as experiências já vividas. Formamos nossas opiniões e fazemos escolhas baseadas basicamente nas nossas referências, referências essas que dependem das experiências vividas e da forma como foram assimiladas. Nem todo mundo (na verdade acho que quase ninguém) consegue adquirir boas referências e olho crítico "de longe", apenas assistindo a vídeos e lendo textos (ahhh os teóricos... hahaha). Sem praticar, sem acompanhar de muito perto, sem sentir na pele, é impossível aprender certas coisas --- e conheço gente que nem assim consegue "captar a informação". Desconfie de quem opina sobre algo que nunca fez, talvez essa pessoa nem saiba exatamente do que você está falando (mas se você também não souber, complica né?) ou de quem opina sobre o que nunca teve (soube de vários casos em que falaram mal de cães de linhagem de trabalho, pessoas que nunca conheceram um sequer, quem dirá um número decente pra se formar opinião....).

Tenha ciência de que não é simplesmente por ser um Dobermann (ou qualquer outra raça "de guarda"), que será um bom cão de guarda. Além da escolha (é preciso avaliar cada indivíduo pois, na prática, generalizações não são confiáveis) e do manejo adequados, a genética (linhagem) tem papel muito importante no que se refere ao potencial do indivíduo.

Enfim, esse era o recado que eu queria dar.
Até semana que vem!

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"We found that differences between the breeds Border Collies and Labrador Retrievers are smaller than the differences between their show and work lines. Although the statistically significant differences were based on small effect sizes, the fact that the differences WITHIN breeds exceed the differences BETWEEN breed is important given practical and legal implications of breed stereotyping. Our results show that generalizations based on breed are not appropriate."

"Regarding line, working Collies differed from working Labradors, but show lines from the two breeds were not significantly different. Altered or relaxed artificial selection for behavioural traits when appearance rather than behaviour become the primary focus for breeders may reduce average differences in impulsivity between breeds in show lines."

"These results are therefore consistent with the hypothesis that the creation of a show line results in a significant loss in behavioural diversity traditionally associated with a particular breed with regards to work related behaviour."

"is inappropriate to make predictions about an individual dog’s behavioural tendency solely based on its breed"

"Our results suggest that choosing the right line of dog within a breed may often be a more important factor when considering behaviour."

Fadel, F. R. et al. Differences in Trait Impulsivity Indicate Diversification of Dog Breeds into Working and Show Lines. Sci. Rep. 6, 22162; doi: 10.1038/srep22162 (2016).

http://www.nature.com/articles/srep22162

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